10 de março de 2011

O Casamento de Shri Shiva e Shri Parvati


     A cidade de Oushadhiprastha situada no Himalaia era governada pelo Rei Parvataraja (literalmente, o Rei da Montanha), um grande devoto de Shiva. Por ser o Senhor de todo o território do Himalaia, ele era também chamado de Himavanta. Esse rei era justo, virtuoso e amado por seus súditos. Seu reino ficava próximo de Kailasa, a morada divina de Shiva. A rainha se chamava Menadevi e era uma ninfa celestial. Da união dos dois nasceu Mainaka, um garoto belo e saudável. A rainha, no entanto, nutria o desejo puro de ter uma filha. Ela própria era devota de Shiva e resolveu fazer penitência para a esposa de Shiva que se chamava Dakshayani (ou Sati). Menadevi entrou em meditação profunda e obteve a graça de ver Dakshayani que lhe prometeu que ela própria, numa encarnação futura, reencarnaria como sua filha.


Dakshayani, numa encarnação anterior, havia sido filha de Daksha e fora casada com Shiva. Por alguma razão desconhecida, Daksha não gostava de Shiva e não perdia uma só oportunidade de insultá-lo. Dakshayani se entristecia muito com isso, pois amava e respeitava seu marido, de quem muito se orgulhava. Certa vez, Daksha convidou o casal para a cerimônia de um grande sacrifício que ele iria celebrar para os Deuses e frente à toda a assembléia, dirigiu-se a Shiva de forma insultuosa. Incapaz de suportar mais esse sacrilégio cometido por seu pai, Dakshayani entrou dentro do fogo do sacrifício, oferecendo-se a ele, a fim de redimir em parte o grande pecado perpetrado por seu pai.

 Após a 'morte' de sua esposa, Shiva tornou-se um asceta e foi para o Himalaia a fim de recolher-se em meditação. Deixou seu palácio em Kailasa e buscou um lugar propício para fazer penitências e meditar. Por isso, foi para um lugar sagrado chamado Gangavatara, próximo a Oushadhiprastha, no alto do Himalaia. Esse era um lugar belíssimo cheio de fragrâncias celestiais e banhado pelas águas sagradas do Rio Gânges. Lá, esquecendo-se dos problemas do mundo, dedicou-se à uma severa disciplina e à meditação.

No devido tempo, a Rainha Menadevi deu à luz uma linda menina. A garotinha nasceu, mas não abria nem os olhos e nem a boca, até que o preceptor da família, Gargamuni, levou até ela uma estátua de Shiva como um presente. O bebê abriu, imediatamente, os olhos e fez uma saudação a Shiva com as mãos postas. Somente depois disso, ela sugou o seio de sua mãe e passou a se alimentar normalmente. Todos ficaram encantados, não só com a beleza da criança, bem como com sua atitude plena de devoção e pensaram que ela obteria, mais tarde, as graças de Shiva. Ela recebeu o nome de Parvati e, à medida que os meses se passaram, ela crescia em graça e beleza, sendo que a primeira palavra que pronunciou foi Shiva. Parvati teve uma infância cheia de folguedos e brincadeiras junto às suas amigas - Jaya e Vijaya - mas jamais deixou de rezar, todos os dias, diante da estátua de Shiva. O tempo passou e ela se tornou uma moça belíssima e virtuosa. Aproximava-se o tempo em que deveria se casar.

Parvataraja imaginava que apenas o Senhor Shiva seria digno de se casar com sua filha. Apesar de sentir isso em seu coração, ele não sabia como poderia encaminhar o casamento dos dois.

Era do conhecimento de todos que Shiva ainda permanecia no lugar sagrado chamado Gangavatara, próximo à Oushadhiprastha, em profunda meditação. Nessa época, o sábio Narada foi visitar Parvataraja, pai de Parvati, que o recebeu com todas as honras e resolveu se aconselhar com ele sobre quem deveria ser o marido de Parvati. O sábio lhe disse: "Parvati, em sua encarnação anterior, era Dakshayani que desistiu de seu corpo ao entrar no fogo do sacrifício, devido à mais pura dedicação ao seu marido. Logo, ambas são a mesma pessoa e por isso apenas Shiva poderá casar-se com Parvati e mais ninguém. Todavia, não é a beleza externa que agradará Shiva, mas sim a piedade, a devoção, a adoração, a penitência, virtudes essas que não são estranhas à Parvati. Com essas virtudes, Parvati certamente obterá a anuência de Shiva em se casar com ela".

Ao saber disso, Parvati ficou muito feliz e resolveu dedicar todos os seus dias apenas ao serviço de Shiva, concentrando-se totalmente na figura dele. Parvataraja (pai de Parvati) foi até Shiva acompanhado de Parvati, a qual levava flores, frutas e incenso para Shiva. Pai e filha cantaram Mantras e, só depois de algum tempo, Shiva olhou para eles e Parvataraja pediu-lhe: "oh, Grande Senhor, trouxe-lhe a minha filha Parvati, que lhe é totalmente devotada, sendo que se deixasse de adorá-lo, ela deixaria de viver. Por favor, permite que ela venha até aqui todos os dias com suas amigas Jaya e Vijaya, a fim de servi-lo e adorá-lo". Shiva respondeu: "Parvataraja, se você quiser vir até aqui todos os dias, estará bem. No entanto, leve sua filha para casa. Sou um asceta, dedicado à penitência e à meditação e, por isso, não necessito de qualquer mulher próxima de mim". O pai de Parvati não se conformou com a primeira negativa de Shiva e procurou convencê-lo de que sua filha lhe seria útil, pois lhe prestaria todos os serviços necessários. Por fim, Shiva concordou e assim, diariamente, Parvati se dirigia a Gangavatara, com suas amigas Jaya e Vijaya, a fim de servir com muito amor aquele que era tudo para ela. Levava sempre todos os objetos de adoração. Tirava água do Gânges no afã de lavar os pés de seu Senhor, adorava-o em silêncio e prestava todos os serviços que se fizessem necessários.

Embora Parvati fosse a mais bela das mulheres, Shiva não se dava conta disso e nem tampouco intuiu que era a sua própria esposa Dakshayani(Parvati, em sua encarnação anterior, era Dakshayani que desistiu de seu corpo ao entrar no fogo do sacrifício, devido à mais pura dedicação ao seu marido. Logo, ambas são as mesma pessoa e por isso apenas Shiva poderá casar-se com Parvati e mais ninguém), dado que Ele sempre estava profundamente mergulhado em seu êxtase meditativo. Por isso, Shiva recebia os serviços de Parvati, mas não abria os olhos para olhá-La. Mesmo assim Ela continuou prestando os seus serviços e fazendo penitências ao Senhor Shiva.

Nessa época a Terra estava cheia de grandes negatividades provocadas pelo Rakshasa Tarakasura. Havia uma previsão feita por Brahma de que somente um filho de Shiva e Parvati seria capaz de pôr fim a esse período nefasto. Os Devas e os seres humanos ficaram preocupados com a possibilidade de Shiva não se casar com Parvati, dado que ele não a olhava como uma mulher. Por isso pediram ao Deus do Amor, Manmatha ou Kamadeva, que usasse o seu arco de cana-de-açúcar e com ele lançasse suas flechas de flores, a fim de incendiar o coração de Shiva com o amor de Parvati. Manmatha juntamente com sua esposa Ratidevi foram ao local em que estavam Shiva e Parvati. No momento em que Parvati colocava uma guirlanda no pescoço de Shiva, Este entreabriu os olhos e Manmatha desferiu as flechas. Sentindo que sua privacidade havia sido desrespeitada, Shiva abriu o seu terceiro olho e com ele queimou Manmatha. Restaram apenas as cinzas de Manmatha, as quais foram recolhidas por sua desesperada esposa, Ratidevi. Esta implorou junto à Parvati que intercedesse junto a Shiva, a fim de restituir a vida ao seu marido. Parvati lhe disse: “não chore, Ratidevi, eu a ajudarei. Pedirei a Shiva e Ele há de devolver a vida ao seu marido”.

O sábio Narada foi novamente à casa de Parvati e Lhe disse que Ela deveria insistir em meditar num lugar próximo ao de Shiva e Lhe ensinou um mantra de cinco letras (Panchakshari) a fim de agradar Shiva, isto é, Om Namah Shivaya. Narada abençoou-A e afirmou que seu casamento estava prestes a ocorrer.

Parvati sentou-se numa pedra, entrou em profunda meditação e suportou todas as intempéries da natureza, tais como a chuva, o frio, o sol abrasador, etc. Ela nunca se importou com qualquer tipo de dificuldade, tristeza ou dor e focalizou a sua mente e forma total em Shiva. Ela entoava mantras e orava com seu rosário na mão. Nos primeiros estágios, Ela se alimentava de frutas. Posteriormente Ela se alimentava apenas de folhas. A grandeza de sua penitência foi tal que todos os animais selvagens passaram a conviver pacificamente uns com os outros e com Ela. A gruta da penitência era um reino de amor, um lar de afeição e bondade. A plenitude do amor de Parvati era tão patente que os Rishis (sábios) se enterneceram com Ela e passaram a orar para que Shiva A desposasse.

Por fim as penitências de Parvati renderam frutos, dado que Shiva teve o seu coração invadido pelo grande amor de Parvati. Malgrado ter percebido todo esse amor, Shiva resolveu testar Parvati. Assim, Ele se disfarçou de mendigo e se dirigiu à Parvati, dizendo-lhe : “não faça tanta penitência para Shiva, pois Ele não se casará com ninguém”. Parvati respondeu-lhe : “sinto que já sou casada com Shiva, caso Ele não me aceite, não Me casarei com mais ninguém”. Ainda disfarçado de 'mendigo', Shiva continuou a testar a firmeza de Parvati, dizendo-Lhe : “Você é uma pessoa bela, pura e inocente, mas não tem sabedoria, pois quer se casar com uma criatura de três olhos e que usa serpentes como ornamentos. Usa uma guirlanda horrível feita de crânios humanos. Sua arma é um tridente e Ele se veste com a pele de um tigre. Seu cabelo é desgrenhado. Traz veneno em seu pescoço e cinzas pelo corpo inteiro. Como Ele traz a Lua e o Rio Gânges (Ganga) em sua cabeça, Ele é extremamente frio. Seu veículo é um touro e está sempre acompanhado de demônios e de espíritos de mortos. Ele é também um mendicante. Você é uma moça bonita e terna, enquanto Ele é feio e austero. Não pense mais Nele e não se case com Ele”.

Parvati ouviu tudo isso e ficou irada. Ela demonstrou seu desagrado, franzindo as sobrancelhas e seus olhos ficaram vermelhos. Com a voz trêmula, disse para o 'mendigo': “você não sabe nada sobre Shiva. É claro que a conduta de uma grande personalidade não se parece nada com a das pessoas comuns. Aqueles que não conseguem compreender isso, partem para a crítica. A glória de Shiva não pode ser igualada por ninguém. Aqueles que confiam Nele livram-se das negatividades. Malgrado Shiva aparentar ser extremamente pobre (do ponto de vista material), Ele tem o poder de conferir todas as riquezas possíveis. Apesar de Shiva ser o Senhor dos Três Mundos, Ele mora no campo de cremação. Ele pode até parecer desajeitado e inútil, mas Ele é o Doador da Felicidade, o Senhor Universal. Ainda que Ele cavalgue um touro, seus pés são beijados por Indra que cavalga o elefante Airavata. Não é preciso falar tanto. Minha mente está totalmente arraigada em Shiva e ninguém pode modificar isso. Estou plenamente consciente das qualidades e da grandiosidade de Shiva. Ele não tem qualquer deformidade ou defeito”.

Parecia que o 'mendigo' iria começar a falar novamente, mas Parvati impediu-o e chamou suas amigas, para que expulsassem aquele 'mendigo' impertinente. Parvati acrescentou ainda : “não pecam somente aqueles que denigrem as grandes personalidades, mas também aqueles que ouvem essas infâmias. Este homem perverso está querendo continuar a pronunciar palavras terríveis. Tirem-no daqui ou Eu sairei desse lugar”. Após dizer isso, Parvati começou a se retirar daquele local. De repente, aquele 'mendigo' assumiu a sua forma verdadeira como Shiva e segurou as mãos de Parvati, dizendo-lhe: “Oh, criatura maravilhosa! Estou contente com suas penitências e seu amor. Você conquistou a minha mente e meu coração. Causei-lhe muito sofrimento, ao testá-La dessa forma. Eu lhe peço perdão por causa disso. Vamos agora para o meu palácio Kailasa”.

Diante dessa revelação inesperada, Parvati replicou: “Senhor, Meus pais estão no palácio de Oushadhiprastha. Seria bom que o Senhor os procurasse, para lhes pedir Minha mão em casamento. Quero que o casamento seja celebrado de acordo com os rituais prescritos e com o consentimento dos mais velhos”. Shiva concordou com Ela. Nesse momento, chegou Ratidevi (esposa de Manmatha ou Kamadeva) para lembrar à Parvati a sua promessa. Parvati então disse à Shiva: “Oh, Senhor, Kamadeva, em sua luta em prol do bem estar do mundo foi queimado por seu terceiro olho. Assegurei à esposa dele, Ratidevi, que Eu lhe pediria para restituir a vida de seu marido”. Shiva concedeu a graça pedida por Parvati, restituindo assim a vida ao marido de Ratidevi.

O casamento de Shiva e Parvati realizou-se, com grande esplendor, num pavilhão construído por Vishwakarma, o famoso arquiteto dos deuses. Posto que Shiva é o Pai do Universo, por ter se casado com ele, Parvati tornou-se a Mãe do Universo. Da união dos dois, nasceram dois grandes Deuses : Ganesha e Kartikeya.

Parvati também tornou-se conhecida como Uumaa, Bhavani (esposa de Bhava – existência, origem – outro nome de Shiva), Sarvamangala (aquela que é a fonte de toda a prosperidade), Mahadevi(A Grande Deusa), Girija, Shailaja, dentre outros.


Fonte : Apostila Anahata da SY