26 de dezembro de 2012

As Castas na Índia




Trechos da palestra proferida na Índia, dezembro de 1998/1999, Puja de Ano Novo.

Como essa palestra se destina às pessoas oriundas de outros países, é preciso que compreendam que este país (Índia) nunca teve uma religião institucionalizada, porque aqui não havia apenas um livro. Os indianos não seguiam uma pessoa e nem tinham organizações tais como existem em outras religiões. Nunca tivemos aqui um alto clero e nem personalidades designadas (para comandar as organizações religiosas). Tudo sempre foi feito muito espontaneamente. Tudo sempre funcionou de modo muito espontâneo.

Sem embargo, subjacente a tudo isso, como já lhes disse, havia a atitude ou o estilo dos indianos de não desafiar e nem questionar aquilo que os grandes santos nos concederam. Isso porque, sempre aceitamos o status deles como pessoas santas, como personalidades mais elevadas - no sentido de que eram mais elevadas do que nós. Por isso, jamais os contestamos e tudo que eles diziam era por nós acatado. O resultado disso foi que surgiu uma forma de conduta ou um estilo de vida.



Não tínhamos nada parecido com uma religião institucionalizada, a não ser, mais tarde, com o surgimento do sistema de castas. Antes disso, não havia o sistema de castas, porque escritores que não eram brâmanes escreveram sobre Shri Rama e Shri Krishna. É deveras surpreendente como sempre aceitamos tudo isso, sem jamais questionar se havia sido escrito por um brâmane ou não.

Brâmanes:
Os brâmanes eram aqueles que conheciam o Princípio de Brahma, o Princípio do Amor Divino Onipresente. Nem todo mundo era brâmane, mas posteriormente todos aqueles que nasciam numa família brâmane tornavam-se brâmanes. Aqueles que nasciam numa outra casta faziam parte dessa casta. Por causa da herança paterna, todos tinham também a mesma profissão adotada pelo pai. Assim, as castas foram estabelecidas em conformidade com as profissões. Não se tratava de religiões, mas sim de castas.

Gadhanis:
É por isso que temos castas diferentes na Índia segundo as profissões. Descobri, recentemente, algo muito interessante: existe uma casta que se chama Gadhani entre os maratas (habitantes do Estado de Maharashtra), que talvez vocês não conheçam. Esses Gadhanis acreditam apenas nas artes. Eles se dedicam à música, à pintura, à escultura e constroem templos. Trata-se de uma casta, de uma profissão (ligada às artes). Eles se casam com pessoas de sua casta, porque é mais fácil casar-se com pessoas da mesma profissão e ter as mesmas idéias e estilos acerca da vida e, especialmente, a respeito da profissão. Posteriormente, esse sistema de profissões (ou de castas) começou a se tornar uma arrematada insensatez. Acho que foram os ingleses que se utilizaram bastante do sistema de castas com o intuito de nos separar uns dos outros.

Shidur:
A casta Shidur não era também de caráter religioso. Tivemos os santos que eram muito respeitados como Chokamela, Eknath e Namadeva. Todos esses santos procuraram identificar-se com todas as castas e, especialmente, com a casta Shidur. Assim, a santidade era considerada como se fosse uma outra ‘casta’, o que equivale a dizer que não se acreditava em qualquer uma das castas. Os santos não pertenciam à casta alguma, eles eram personalidades sem casta e sem religião (institucionalizada).

Santos:
Sem embargo, a meta suprema de todas os integrantes de todas as castas era a obtenção da autorrealização. Assim, eles ingressavam num grupo ou sistema de santos. Todos os santos muçulmanos, hindus e jainistas eram considerados, conjuntamente, como santos. Havia também os Sufis que se originaram da cultura islâmica. Entre os jainistas, havia os Kirthankaras. O ponto essencial comum entre eles era que acreditavam: numa vida ética, numa vida mais elevada, numa vida espiritual e viviam em consonância com tudo isso.....

Qual é a sua casta?
Nesse país (Índia), tudo isso (as religiões e as castas) foi usado e explorado pela política, a fim de promover todos os tipos de segregação e discriminação entre as pessoas. Isso se transformou realmente num conjunto de idéias rígidas acerca de qualquer pessoa, pois a primeira pergunta que se fazia a qualquer um era: ‘qual é a sua casta?’ Isso agora acabou. Ninguém mais pergunta pela casta dos outros.

Graças a Deus, impera um maior bom senso agora, dado que ninguém mais indaga a respeito da casta ou da religião dos outros. No entanto, antigamente, era costumeiro perguntar qual era a casta ou a religião de alguém que estivesse se submetendo a um exame ou a qualquer outro tipo de competição.

Paulatinamente, isso está acabando, porém os políticos ainda querem usar o sistema de castas como um método para fazer funcionar a oposição ou a maior parte dela. Sob esse aspecto, a democracia não nos ajuda muito, dado que qualquer um pode fundar uma organização e dizer que pertence à essa ou àquela casta.
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Por causa desse problema consistente na criação de castas artificiais, esse país (Índia) tem sofrido muito. As castas dos Gurus, dos Sufis e dos santos estão muito poluídas e, por isso, há muitos indivíduos, em nosso país, que se transformaram em Gurus.

Dharma:
Sem embargo, a coisa mais relevante era a ética que constituía o cerne da cultura indiana, ou seja, a ética do Dharma. Sem Dharma os seres humanos tornam-se piores do que os animais. A ética era muito importante para quaisquer castas ou indivíduos. Todos tinham ética, quando Eu era jovem. No entanto, atualmente, isso se tornou uma mixórdia e uma grande complicação. ...