5 de agosto de 2011

Shri Vishnu

Shri Vishnu e seus Avatares - 
Uma Visão Clássica ou Tradicional da Mitologia Hindu
Shri Vishnu e Shri Lakshmi

A palavra 'avatar' vem do sânscrito  e significa 'descida'. Trata-se de uma encarnação de uma divindade sob uma forma humana/animal para combater o mal no mundo. O hinduísmo aponta 10 avatares de Shri Vishnu.

Cada criação ou Kalpa é igual a um dia e cada dissolução ou Pralaya é igual à uma noite na vida do Senhor Brahma. Uma Kalpa e uma Pralaya duram 4.320.000.000 anos humanos cada uma. Cada Kalpa tem 1.000 ciclos de quatro Yugas. Cada ciclo de quatro Yugas é completado em 4.320.000 anos humanos. As Yugas são chamadas de Satya, Treta, Dwapara e Kali.

A fim de preservar a criação do Senhor Brahma, o Senhor Vishnu tem de descer à Terra numa forma mortal. Uma encarnação do Senhor Vishnu é chamada de Avatar. Até agora, o Senhor Vishnu encarnou-se sob a forma de um peixe (Matsya), de uma tartaruga (Kurma), de um javali (Varaha), de um anão (Vamana), de um ser metade leão e metade homem (Narasimha). Além do anão (Vamana), o Senhor Vishnu encarnou-se nas figuras humanas: Parashurama (que significa Rama com o machado),  Rama, Krishna e Buda. O décimo Avatar está ainda por vir e se chama Kalki.

   
Uma formulação significativa da doutrina dos Avatares é dada pelo Bhagavad Gita, quando o Senhor Krishna diz a Arjuna: “sempre que há um declínio da retidão e um recrudescimento do mal, Eu surjo, de tempos em tempos, no afã de proteger os bons, destruir os maus e para restaurar a virtude.

SHRI VISHNU

Shankaracharya diz que o nome Vishnu vem da raiz sânscrita ‘Vish’ (que indica a Sua presença em todos os lugares ou Sua onipresença) combinada com o sufixo ‘Nuk’. O Vishnu Purana diz: “o poder do Ser Supremo penetrou todo o universo”. Assim, a raiz ‘Vish’ significa também penetrar ou entrar. Shankaracharya comenta também que um dos nomes de Vishnu é Vishwam, que significa o ‘todo o universo manifestado’. Assim, Ele é chamado de Vishwam porque o universo manifestado tem a sua fonte Nele, eis que Brahman (o Absoluto) manifesta-se (no universo) através de Vishnu. 

Shri Vishnu é a personificação do Poder de Preservação do Espírito Divino, tal como Shri Shiva é a personificação do Poder de Destruição\Reconstrução e Shri Brahma do Poder de Criação. Os seguidores de Shri Vishnu são chamados de Vaishnavas.



Shri Vishnu é geralmente representado como sendo azul. Seu veículo (Vahana) é Garuda, que é metade homem e metade pássaro. Sua Shakti (energia, poder) ou esposa é a Deusa Lakshmi. Ele é representado com quatro mãos – a primeira segura uma concha. A concha está associada à origem da existência por causa de sua forma espiral e sua conexão com a água e com o som (quando é soprada). A segunda mão traz um disco. O disco (ou roda) representa a Mente Universal e os poderes de criar e de destruir que formam o universo em evolução, além de outros aspectos. A terceira segura uma clava (ou maça) que simboliza a autoridade, ou o poder do conhecimento, bem como a essência da vida. A quarta mão segura uma flor de lótus.


Shri Vishnu é também representado adormecido sobre Shesha Naga ou Ananta, a serpente da Eternidade. No fim da Kali Yuga, Shri Vishnu repousará naquela posição, quando então de seu umbigo surgirá o caule de uma flor de lótus, no topo da qual, acima das águas, que naquele momento cobrirão o mundo, o Senhor Brahma aparecerá a fim de criar a Terra novamente.
Uma outra versão desse mito, contida no Skanda Purana, narra que quando o mundo estava ainda coberto de água,  Shri Vishnu estava adormecido no colo da DEVI, quando uma flor de lótus surgiu de seu umbigo. Essa flor ascendeu e ultrapassou a superfície da água e Shri Brahma emergiu daquela flor.
Na trindade cosmológica, Vishnu é o nome dado à tendência de coesão ou a força centrípeta conhecida como a Sattva Guna. Daí sua vinculação com os conceitos de preservação, continuidade e permanência. Vishnu é tudo aquilo no universo que tende para um centro, para uma maior concentração, maior coesão, mais existência, mais realidade, mais luz e para a verdade. Por outro lado, a força centrífuga ou a tendência à dispersão, aniquilação e destruição é simbolizada por Shiva. Ademais, Vishnu não se vincula à forma exterior das coisas, dado que isso compete ao Criador Brahma.

O nome Vishnu vem da raiz sânscrita Vishlr que significa ‘espalhar-se em todas as direções” ou “estar presente em todos os lugares”. Como a coesão interna de tudo aquilo que existe, Vishnu está presente em todas as coisas e combate o poder da destruição. Todavia, não pode haver o estado de existência independentemente da destruição. Não pode haver vida sem que haja morte. Logo, Vishnu e Shiva são realmente interdependentes. Enquanto Shiva é o Senhor da Destruição, Vishnu é o Princípio da Duração (ou Permanência) e pode ser considerado um símbolo da vida eterna. Vishnu é o poder de sustentação do universo. Portanto, Ele é a meta para a qual tendem todos os seres temporários. Ele é a esperança de tudo aquilo que deve morrer, o objetivo de todos os credos. O Mahabharata afirma: “Ele é Vishnu porque supera tudo”.

Vishnu é Hari, o ‘Removedor’. Isso significa que Vishnu remove a ignorância e seus efeitos, vale dizer, destrói a crença de que as coisas podem existir por si mesmas separadas Dele. Ele também é o removedor do sofrimento e o doador de consolação e de satisfação.

Dada a vinculação de Vishnu com a preservação do Dharma, pode-se dizer que todos os credos contêm o Princípio de Vishnu, enquanto que toda a ciência contém o Princípio de Brahma. Assim também, todas as tentativas de alcançar o conhecimento transcendental, vale dizer, tentar captar aquilo que é – ou que não é – além da existência, além da individualidade, podem estar vinculadas ao Princípio de Shiva.

Quando Vishnu dorme, o universo se dissolve num estado sem forma representado pelo oceano causal (ou as águas primordiais). Os remanescentes da manifestação são representados pela serpente Shesha enrolada sobre si mesma (que não deve ser confundida com a Kundalini) e que flutua sobre as águas abissais. Nesse caso, Vishnu é chamado de Narayana (aquele que se move sobre as águas). Narayana pode significar também ‘a morada do homem’.

Dada a impossibilidade de separar uma divindade de sua Shakti, Vishnu é representado, muitas vezes, como LAKSHMI-NARAYANA. Nesse caso, ambos estão associados com os conceitos de riqueza e de beleza.

Vishnu é ainda representado como Vishnu Bhoga-Sthanaka-Murti, ou seja, Bhoga significa a conquista da riqueza e da prosperidade; Sthanaka significa ficar de pé e Murti significa imagem. Em suma, seria a imagem (Murti) de pé (Sthanaka) de
Vishnu que seria adorada quando se pretende conquistar ou preservar a riqueza e a prosperidade (Bhoga).

Representa-se Vishnu também em companhia de Shridevi (que simboliza a riqueza e outro de seus nomes é Lakshmi) e de Bhudevi (a Terra, ou Prithivi).
GARUDA, o pássaro mítico, é o veículo de Vishnu. Muitos afirmam que os Vahanas (veículos) das Divindades representam sob uma forma animal as qualidades essenciais dessas mesmas Divindades. 


1. O PRIMEIRO AVATAR: MATSYA (PEIXE)

Brahma estava pronto para entrar em recesso ao final da Kalpa. A noite traria Pralaya ou a dissolução da vida no universo. Na medida em que ele se tornou sonolento e bocejou, o conhecimento dos Vedas saltou para fora de sua boca sem que ele percebesse. O Asura Hayagriva, um demônio com cabeça de cavalo, absorveu, silenciosamente, todo aquele conhecimento e pretendia mantê-lo somente para ele mesmo, de forma que aquele conhecimento ficaria perdido até a próxima Kalpa. O Senhor Vishnu estava observando tudo aquilo e decidiu fazer alguma coisa para resolver essa situação. O Senhor Vishnu tomou a forma de um pequeno peixe. Um de seus devotos, o Rei Satyavrata, estava fazendo as suas orações parcialmente submerso no rio. Quando Satyavrata pegou um pouco de água do rio, em suas mãos, descobriu um pequeno peixe nessa água. Para seu espanto, o peixe começou a conversar com ele com uma voz humana. O peixe pediu ao rei que o protegesse das outras criaturas do rio. O rei colocou o peixe em seu samburá (kamandalu) com um pouco de água e o levou para o seu palácio. O peixe cresceu rapidamente e ocupou todo o espaço do samburá. O rei então colocou o peixe num vaso maior. O peixe, em breve, ocupou todo o espaço desse vaso. O rei então colocou o peixe primeiramente num poço, depois num lago pequeno e, em seguida, num lago maior, mas, num só dia, o peixe ultrapassou o espaço fornecido por todas essas águas. O rei não teve outra alternativa senão a de colocar o peixe no mar. Nesse momento, o rei deu-se conta de que aquele peixe era o próprio Senhor Vishnu. O rei prostrou-se diante do peixe e perguntou ao Senhor Vishnu qual era o propósito dessa sua ação.

O Senhor Vishnu contou-lhe toda a história e ainda lhe disse: “dentro de sete dias o mundo será coberto de água e toda a vida cessará de existir. Eu lhe mandarei um barco para salvá-lo. Eu gostaria que você recolhesse todos os tipos de sementes, ervas e animais que você quer que sobrevivam até a próxima Kalpa. Depois disso, entre no barco com os sete Rishis (sábios) e o Rei das serpentes, Vasuki, e espere lá por mim”.

O peixe desapareceu. Enquanto isso, Hayagriva viu o peixe gigantesco aproximar-se dele e ficou apavorado. Ele tinha de manter a sua boca fechada, pois se a abrisse perderia todo o conhecimento dos Vedas. O peixe (Senhor Vishnu) massacrou Hayagriva e recuperou o conhecimento dos Vedas e, em seguida, o devolveu ao Senhor Brahma.

[Numa outra versão desse mito, o Senhor Vishnu, ao invés de devolver os Vedas ao Senhor Brahma,  teria dado esses textos sagrados ao Rei Satyavrata, quando então ensinou-lhe os princípios do conhecimento que deveriam orientar a raça humana durante as próximas quatro Yugas, isto é, a verdadeira doutrina do Si e do Absoluto.]

Sete dias depois, uma tempestade enorme inundou a terra. Não se podia ir a lugar algum. O Rei Satyavrata e seus companheiros estavam esperando, num rochedo, o Senhor Vishnu, quando avistaram um barco. Em seguida, o barco aproximou-se deles e eles foram salvos. Logo eles viram o peixe gigantesco novamente. O peixe tinha um chifre dourado e lhes disse que deviam atar o barco ao seu chifre, utilizando-se como corda o Rei das serpentes, Vasuki.  Vasuki obedeceu à ordem do Senhor Vishnu. Eles singraram aquela vasta amplitude de água durante a noite toda. Naquela noite da Pralaya, o Senhor Vishnu ensinou ao Rei Satyavrata e aos sete sábios (Rishis) a mais excelsa forma da Verdade, que nos foi legada como uma coleção que se chama Matsya Purana. O Senhor Vishnu salvou os verdadeiros devotos da dissolução, de forma que eles puderam preservar todo aquele Conhecimento Divino até a Kalpa seguinte. O Rei Satyavrata foi o sábio Manu na Kalpa seguinte.


2. O SEGUNDO AVATAR: KURMA (TARTARUGA)

Por causa de uma maldição lançada pelo raivoso sábio Durvasa, os Devatas, ou seja, os comandantes do Deus Indra que vivia no Swarga (céu) tornaram-se fracos e covardes. Os seus inimigos como os Asuras (demônios) eram fortes. Os Asuras começaram a torturar os Devatas e causaram grandes perdas em suas legiões de seres celestiais. Indra, o Rei dos Devatas, foi procurar o Senhor Brahma para lhe pedir ajuda. Brahma ouviu atentamente o seu relato e sugeriu que ele fosse procurar o Senhor Vishnu, o preservador de toda a criação.

O Senhor Vishnu repousava serenamente em seu leito formado pela serpente enrolada, Sheshanaga.  Em suas quatro mãos, ele trazia uma flor de lótus numa delas, em outra uma concha, na terceira um disco e na quarta uma clava. Sua esposa Lakshmi estava ao seu lado. Ele ouviu a súplica dos Devatas e lhes deu uma sugestão. Ele lhes disse que a única saída para eles (Devatas) era obter o néctar da imortalidade e bebê-lo. Os Asuras jamais poderiam derrotá-los, se eles se tornassem imortais.

Indra começou a imaginar como é que poderia obter o néctar da imortalidade. O Senhor Vishnu lhe disse que essa era uma tarefa difícil, porém possível. Primeiramente, os Devatas deviam fazer as pazes com os Asuras. Em seguida, com a ajuda dos Asuras eles teriam de trazer a grande montanha Mandara para o mar. Eles teriam de colocar no mar todos os tipos de plantas: ervas, gramas e trepadeiras. Depois teriam de amarrar Vasuki, o Rei das serpentes, na montanha Mandara e agitar o oceano com a ajuda dos Asuras. Dessa forma, o oceano produziria o néctar da imortalidade. O Senhor Vishnu lhes disse que eles não deveriam brigar por causa do néctar, mesmo que os Asuras ficassem controlando esse néctar. O Senhor Vishnu prometeu aos Devatas que não permitiria que os Asuras bebessem sequer uma gota desse néctar.

Indra reuniu todos os Devatas e todos foram ao encontro dos Asuras. Bali, o Rei dos Asuras, deu-lhes as boas-vindas, uma vez que eles tinha ido até lá pacificamente. Indra lhe disse qual era o objetivo da visita e adiantou-lhe que o néctar seria dividido em duas partes: metade para os Devatas e metade para os Asuras. Bali concordou prontamente,  imaginando que, tão logo o néctar fosse obtido, ele o usurparia para si e para os outros Asuras.

Os Devatas e os Asuras foram juntos à montanha Mandara e a arrancaram. Todos ajudaram a levantá-la e a transportá-la em direção ao mar. Na metade do caminho, todos eles se sentiram totalmente exaustos. Vendo isso, o Senhor Vishnu pediu a Garuda, o seu veículo, que o levasse voando até aquele local. Em seguida, ordenou a Garuda que pegasse a montanha e voasse com ela até o oceano. Como Garuda possuía poderes divinos, ele era capaz de levantar a montanha com muita facilidade. Então, ele colocou-a suavemente no mar. Em seguida, o Senhor Vishnu pediu ao Rei das serpentes (Vasuki) que se enrolasse em torno da montanha Mandara. Os Asuras seguraram a cauda da serpente e os Devatas seguraram-lhe a cabeça e todos começaram a agitar o oceano. Pouco tempo depois, todos ficaram exaustos e a montanha afundou no oceano.

Ao ver isso, o Senhor Vishnu tomou a forma de uma tartaruga imensa (KURMA). A tartaruga mergulhou até o fundo do oceano e trouxe a montanha de volta à superfície. Dessa forma, a tartaruga permitiu que os Devatas e os Asuras pudessem agitar o oceano novamente. Pouco tempo depois, eles ficaram novamente exaustos. O Senhor Vishnu (sob a forma da tartaruga) novamente veio ajudá-los e começou ele mesmo a agitar o oceano.

A primeira coisa que saiu do oceano foi Halahala que é um veneno muito potente. Os gases tóxicos do Halahala inundaram a atmosfera. Os Devatas e os Asuras ficaram, momentaneamente, cegos e sufocados. Todos eles tiveram de deixar de lado a tarefa de agitar o oceano e correr para se salvarem. Eles então correram até o Senhor Shiva para que este os ajudasse. O Senhor Shiva veio até o oceano e bebeu todo o veneno (Halahala), o qual fez com que a pele do Senhor Shiva se tornasse azul, cor essa que pode ser vista nas pinturas e esculturas que representam o Senhor Shiva.

Depois que o veneno acabou, a agitação do oceano foi retomada. Muitas coisas preciosas vieram à tona, mas todos estavam de olho na chegada do néctar. Finalmente, uma forma humana emergiu do mar que era Dhavantari trazendo uma jarra cheia de néctar. Imediatamente, os Asuras agarraram a jarra de néctar, correram com ela para longe dali e, em seguida, começaram a brigar entre si pelo primeiro gole de néctar. Os Devatas não os perseguiram, porque eles se lembraram da promessa do Senhor Vishnu de que os Asuras não beberiam do néctar. O Senhor Vishnu ficou contente e tomou a forma de uma mulher lindíssima de nome Mohini. Os Asuras ficaram deslumbrados pela beleza dessa mulher e, momentaneamente, esqueceram-se do néctar. Acabaram confiando a jarra à Mohini que lhes disse que ela distribuiria o néctar e eles foram incapazes de questionar as ações dela.

Os Devatas se alinharam numa fileira e os Asuras em outra, a fim de receber o néctar de Mohini. Mohini começou a distribuir o néctar primeiro para os Devatas. A intenção dela era esvaziar a jarra antes que os Asuras fossem servidos. No meio desse processo, um dos Asuras chamado Rahu percebeu que os Asuras estavam sendo enganados por Mohini. Disfarçou-se de Devata e colocou-se na fileira dos Devatas perto de Surya (Sol). Como Mohini estava prestes a lhe dar o néctar, Surya (Sol) advertiu-a de que Rahu era um Asura. Rahu tentou então agarrar a jarra de néctar e, ao fazê-lo, o néctar caiu em seu rosto e em seu corpo. Mohini transformou-se, momentaneamente, no Senhor Vishnu, que, de imediato, pegou o seu disco (Chakra) e cortou com ele a cabeça de Rahu. Como o corpo e a cabeça de Rahu haviam sido imortalizados pelo néctar, ambos sobreviveram apesar de estarem separados. Ao corpo foi dado o nome de Ketu. A fim de se vingar de Surya (Sol), Rahu, periodicamente, tenta engolir Surya (o Sol), mas este prontamente salta fora de sua garganta. [Essa é a explicação mitológica para o eclipse do Sol].

Depois que os Devatas haviam consumido o néctar e a jarra estava vazia, os demônios exigiram de Mohini a cota deles. Mohini transformou-se na forma original do Senhor Vishnu, que sorriu para eles. Os Asuras ficaram furiosos e declararam guerra aos Devatas. Todavia, os Devatas já tinham se tornado imortais e os Asuras já não eram páreo para eles. Os Asuras foram derrotados e mandados para o inferno (Paataala), onde permaneceram para sempre. Os Devatas permaneceram no céu e sua gloria foi restaurada.

[Uma outra versão desse mito registra que, com a agitação do mar, outras dádivas divinas surgiram, tais como: Chandra (a Lua); Lakshmi (a Deusa da Fortuna e da Beleza); Surabhi (a vaca que concede tudo em abundância); Airavata (o elefante real de Indra); Panchajanya (a concha que confere a vitória para aquele que soprá-la); Parijata (a árvore celestial que espontaneamente produz tudo aquilo que é desejado pelas pessoas); Dhanusha (um arco certeiro e infalível); Uchisrava (cavalo de oito cabeças de Indra); Kustubha (uma jóia de inestimável valor), dentre outras coisas.]

[No Satapatha Brahmana está escrito que: “O Senhor Vishnu, tendo assumido a forma da tartaruga, deu origem à toda a criação, daí o nome de Kurma que significa ‘feito’ ou ‘proeza’ dado à tartaruga”. ]

[O Markandeya Purana descreve que o subcontinente indiano repousa, permanentemente, sobre as costas de uma tartaruga gigante que é o Senhor Vishnu.]      


3. TERCEIRO AVATAR: VARAHA (JAVALI)

A Pralaya havia terminado e estava começando uma nova Kalpa. O Senhor Brahma estava muito atarefado em seu trabalho de criação e a Senhora Mãe Terra (Shri Bhumi Devi) estava sendo balançada pelas ondas até que, finalmente, afundou nas profundezas do oceano.

Manu (o Rei Satyavrata da Kalpa anterior) e Shatarupa (a primeira mulher) foram procurar o Senhor Brahma, a fim de aconselhar-se com ele. Brahma lhes disse que deveriam manter o seu coração livre de ciúme, que tivessem muitos filhos virtuosos e governassem a Terra.

Manu tornou-se assim o primeiro governante da Terra, embora a Terra tivesse ainda de ser encontrada, pois a Terra estava encravada no fundo do oceano. O Senhor Brahma então pensou que poderia criar as coisas, mas não poderia preservá-las, eis que não possuía o Poder da Preservação. Por isso, ele meditou sobre o Senhor Vishnu, o Preservador.

Na medida em que ele estava meditando sobre o Senhor Vishnu, um javali minúsculo do tamanho de um dedo polegar emergiu de sua narina. Todos ficaram muito espantados, dado que o minúsculo javali teve um crescimento muito rápido, tornando-se, primeiramente, do tamanho de um elefante e, pouco tempo depois, maior do que uma montanha. A partir desse momento, todos perceberam que o javali era o próprio Senhor Vishnu.

O Senhor Brahma e Manu estavam ainda perplexos, quando o javali emitiu um ruído terrível, saltou para o céu rompendo as nuvens. Em seguida, deu uma volta e mergulhou no oceano. O Senhor Vishnu (o javali) encontrou a Mãe Terra (Shri Bhumi Devi ou Prithivi) atolada nas profundezas do oceano e levantou-a com seu focinho e moveu-a para cima a fim de retirá-la do oceano.

Hiranyaksha era um demônio (Rakshasa) terrível. Todos os Devatas estavam se escondendo dele de medo. Ele estava querendo lutar com alguém. Então, ele se aproximou de Varuna (o Senhor do oceano) e desafiou-o para uma luta. Varuna sabia muito bem que o demônio era muito mais forte do que ele. Por isso, ele disse a Hiranyaksha que ele estava muito velho e tinha desistido de lutar e sugeriu que o Rakshasa fosse procurar o Senhor Vishnu para lhe propor uma luta.

Narada era um sábio que podia transitar livremente na Terra, no Céu (Swarga) e no Inferno (Paataala). Hiranyaksha perguntou a Narada em que lugar ele poderia encontrar o Senhor Vishnu. Narada indicou o oceano como o lugar onde ele poderia encontrar o Senhor Vishnu.

Sedento por uma luta, o demônio não perdeu tempo indo diretamente para o oceano, onde avistou o javali (ou Vishnu) saindo do mar. Como o javali estava transportando Shri Bhumi Devi, Hiranyaksha insistiu para que ele largasse a Mãe Terra e fosse lutar com ele. O javali nem tomou conhecimento dele e por isso, Hiranyaksha começou a fazer chacota do Senhor Vishnu dizendo que este havia ganho todas as guerras mediante o uso de sua magia (Maya) e não por sua bravura.

Como o javali estava realizando uma tarefa, ele não prestou atenção ao demônio. O demônio ficou irado e disse que o javali deveria ficar envergonhado de não encarar um desafiante. O javali, nesse passo, alcançou a superfície, colocou Shri Bhumi Devi num lugar seguro e abençoou-a. Só depois disso, ele voltou a fim de enfrentar o demônio. Eles começaram a lutar com uma clava. A luta se desenvolvia ferozmente e já se aproximavam do limiar do anoitecer. Nesse momento, o Senhor Brahma ficou preocupado e disse ao Senhor Vishnu que matasse o demônio antes que escurecesse totalmente, porque, durante a noite, a força do demônio aumentava substancialmente. Hiranyaksha arremessou violentamente a sua clava em direção ao javali, o qual a pegou como se fosse um brinquedo. Eles começaram a lutar com murros e chutes. Finalmente, o javali (Senhor Vishnu) golpeou a testa do demônio com sua pata e ele morreu instantaneamente.

O Senhor Vishnu encarnou-se na Terra pela terceira vez como um javali, a fim de salvar os Devatas do demônio Hiranyaksha e para resgatar a Mãe Terra do fundo do oceano. A Mãe Terra deu abrigo a Manu e a Shatarupa, que tiveram muitos filhos virtuosos. Nós também somos filhos da raça que eles começaram a conceber. É por isso que somos chamados de Manav ou filhos de Manu.

[Outras versões desse mito encontram-se no:
1.Taittiriya Samhita: “No início, o universo era totalmente fluido. Tudo era água. Shri Vishnu, movendo-se na forma de vento, viu a Terra. Transformou-se num javali e levantou a Terra, tornando-se assim o Arquiteto do Mundo (Vishwakarma). Ele a aplainou e a estendeu. Daí porque a Terra é chamada de ‘aquela que é estendida’ (Prithivi)”.
2. Vishnu Purana: “… Vishnu,  tomando a forma de um javali, mergulhou nas águas primordiais e, depois de ter matado o demônio chamado ‘o olho dourado’ (Hiranyaksha), removeu a Terra do fundo do mar. Depois de tê-la resgatado, fez com que a Terra flutuasse sobre o oceano como um grande navio. Em seguida, Vishnu aplainou a Terra, adornou-a com montanhas e a dividiu em sete continentes. Depois disso, Hari, o Deus Removedor da Tristeza, tomou a forma das quatro faces do Ser Imenso, Brahma, e no ritmo da Guna da ação, Rajas, criou a vida.
3. Taittiriya Brahmana: “… Vishnu estava meditando e ficou imaginando como deveria ser o universo. Ele viu então uma folha de lótus acima da água e pensou: ‘esse lótus deve se apoiar em alguma coisa. Assumindo a forma de um javali, ele mergulhou e encontrou a Terra. Retirando um fragmento dela, subiu à superfície e espalhou esse fragmento sobre a folha de lótus. Dado que ele espalhou aquele fragmento, essa ação de tornar-se (Abhut) é que deu o nome à Terra - Bhumi, que significa ‘aquela que se tornou algo’.]


4. O QUARTO AVATAR: NARASIMHA (METADE HOMEM E METADE LEÃO. NARA = HOMEM; SIMHA = LEÃO)

Hiranyakashipu era o irmão mais velho Hiranyaksha que havia sido morto por Varaha, o terceiro Avatar do Senhor Vishnu. Hiranyakashipu jurou vingar-se e mandou que seus súditos (os Asuras) destruíssem todas as pessoas boas e as colocassem no fogo ritual e exterminassem o seu gado. Enquanto os Asuras cumpriam essas ordens, Hiranyakashipu foi para a montanha Mandara e começou a praticar penitências rigorosas, com o intuito de dominar os três mundos: a Terra (Dharti), o Céu (Swarga) e o Inferno (Paataala). Ele permaneceu sobre uma perna só, durantes anos a fio. A grama começou a crescer na sujeira acumulada em seu corpo e as formigas construíram seu formigueiro em torno dele. O poder de sua devoção fez com que os rios inundassem, as montanhas tremessem e os vilarejos incendiassem sem que ninguém tivesse ateado fogo a eles.

O rápido incremento do poder desse demônio fez com que os Devatas ficassem apavorados. Indra os levou ao Senhor Brahma e eles lhe suplicaram que fizesse alguma coisa a fim de interromper as penitências do demônio. O Senhor Brahma procurou Hiranyakashipu e lhe disse que ele estava impressionado com a devoção do demônio e que ele podia parar de praticar aquelas penitências. O Senhor Brahma disse-lhe ainda que ele poderia solicitar que uma graça lhe fosse concedida.

Hiranyakashipu solicitou ao Senhor Brahma que lhe concedesse a graça de que a morte não o atingisse através de um homem ou de um animal, nem durante o dia, nem durante a noite, nem dentro e nem fora de uma casa, nem sobre a Terra e nem no Céu. O Senhor Brahma concedeu-lhe, prontamente, a graça que Hiranyakashipu havia pedido.
Com esse novo poder, Hiranyakashipu tornou-se ainda mais truculento e começou a matar todas as pessoas boas. Ele expulsou os Devatas de seus palácios.

Seu filhinho Prahlad era um devoto do Senhor Vishnu. Hiranyakashipu não podia suportar a idéia de que seu próprio filhinho estava adorando o Senhor Vishnu em sua própria casa. Em vão, tentou vários truques para fazer com que seu filhinho parasse de adorar o Senhor Vishnu. Como um dos recursos, Hiranyakashipu pediu à sua irmã, Holika, que se sentasse numa pira mortuária com Prahlad em seu colo. Holika tinha o dom de que o fogo não podia queimá-la. No entanto, o fogo a queimou inteiramente até que ela virasse cinzas e Prahlad saiu da pira mortuária são e salvo.

[Até hoje, os hindus queimam pedaços de madeira durante o festival chamado HOLI, em todas as partes das cidades, a fim de celebrar a devoção de Prahlad ao Senhor Vishnu.]

Hiranyakashipu decidiu que ele mesmo teria de matar o seu filhinho. Ele interrompeu a profunda meditação de Prahlad e disse-lhe que se o Senhor Vishnu estava em todas as partes, ele (Vishnu) poderia emergir do pilar a fim de ajudá-lo. Ao dizer isso, esmurrou o pilar. O pilar rompeu-se e uma estranha criatura saiu de dentro dele, a qual tinha a cabeça, o pescoço e as mãos de um leão e o resto do corpo de um homem. Dessa forma, essa criatura não era nem homem nem animal e foi chamada de NARASIMHA. Hiranyakashipu percebeu que era o próprio Senhor Vishnu que estava diante dele e desafiou-o para uma luta. Uma luta feroz começou. Por fim, Narasimha carregou Hiranyakashipu até que ambos ficassem debaixo do arco de uma porta e, assim, eles não estavam nem dentro e nem fora da casa. Em seguida, levantou o demônio e o colocou sobre as suas coxas, de modo que Hiranyakashipu não estava nem sobre a Terra e nem no Céu. Esse momento ocorreu pouco depois do pôr-do-sol e antes da noite fechada e, portanto, não era nem dia e nem noite. Narasimha esquartejou o corpo de Hiranyakashipu com suas próprias mãos e o matou. Prahlad e os Devatas foram salvos, bem como todas as pessoas boas que viviam sobre a Terra.

[Os hindus celebram o festival denominado HOLI em memória de Narasimha, Avatar do Senhor Vishnu. Nesse dia, as pessoas se vestem de branco e aspergem água colorida umas nas outras. Vão à casa das pessoas amigas, abraçam-nas e colocam um pó colorido em suas faces. São oferecidos vários doces aos visitantes e o doce mais famoso é o Gujhia. À noite, as pessoas fazem com pedaços de madeira grandes fogueiras nas praças das cidades. Nessas fogueiras, são assados grãos verdes de Channa (grão que se assemelha ao grão-de-bico). O festival Holi termina à meia-noite.


5. O QUINTO AVATAR: VAMANA (ANÃO)

Prahlad, o devoto do Senhor Vishnu, comandou, durante muitos anos, os Asuras, após a morte de seu pai, Hiranyakashipu. Depois que ele abdicou do trono, o seu filho e depois o seu neto Bali tornaram-se reis dos Asuras. Bali, apesar de ser um rei bom e generoso, tinha de manter em sua mente os interesses dos Asuras. Com a ajuda de seu Guru, Shukracharya, ele realizou o sacrifício Vishwajit, que significa a ‘conquista do mundo’. Uma carruagem dourada surgiu do fogo do sacrifício, com armas celestiais e uma armadura. Com esse material bélico, ele poderia derrotar os Devatas, os antigos inimigos dos Asuras.

Ele conquistou Dharti (Terra), Paataala (Inferno) e quis conquistar Swarga (Céu), a morada dos Devatas. A capital do Swarga era Amravati de onde Indra governava o Céu. O exército de Bali cercou Amravati. Indra e seus Devatas sabiam que seria impossível derrotar Bali, dado que este estava de posse das armas celestiais. Indra foi procurar seu Guru Brahaspati, a fim de lhe pedir conselhos. O Guru Brahaspati disse a Indra que o poder do Asura Bali era temporário, pois ele cessaria no momento em que Bali não mais seguisse os conselhos do Guru dele que era Shukracharya. Por isso, Brahaspati aconselhou Indra a recuar. Desse modo, não houve guerra alguma e Bali tornou-se o Rei dos três mundos.

Aditi, Mãe dos Devatas, ficou com pena de seus filhos e ficou imaginando o que é que ela poderia fazer a fim de ajudá-los. Ela aguardou que seu marido, o sábio Kashyap, voltasse para casa. Quando o sábio Kashyap viu sua esposa sentada do lado de fora da casa com uma fisionomia triste, ele percebeu que algo de ruim havia ocorrido com seus filhos. Depois de ouvir toda a história, Kashyap disse à sua esposa que ela devia fazer um Prayovrata (um jejum no qual não se ingere alimento algum a não ser leite puro. Aliás, é o jejum favorito do Senhor Vishnu) e manter a sua atenção concentrada no Senhor Vishnu.

Aditi jejuou durante treze dias e o Senhor Vishnu ficou contente com o jejum de Aditi e apareceu diante dela. O Senhor Vishnu disse à Aditi que ele ‘nasceria’ como filho dela, a fim de corrigir essa situação problemática. Depois de um certo tempo, o Senhor Vishnu ‘nasceu’ como um filho de Aditi. Ele cresceu rapidamente até que atingiu a altura de dois pés (66 centímetros, aproximadamente) e parou de crescer, dado que ele havia assumido a forma de um anão e tornou-se a quinta encarnação do Senhor Vishnu, o Avatar Vamana.

Os brâmanes eram reverenciados naqueles dias. Os reis tinham grande respeito por eles e todos os seus desejos eram satisfeitos. O Senhor Vishnu tinha nascido como brâmane em sua encarnação anterior. O rei Bali estava realizando Yagya (orações rituais diante do fogo), quando, subitamente, uma luz ofuscante cegou o rei e todos os seus súditos. Depois que os seus olhos se acostumaram com aquela luz muito brilhante, eles viram a miniatura de um brâmane (que era o Avatar Vamana, o anão) diante deles. O rei levantou-se imediatamente a fim de saudar o brâmane. O rei ofereceu a ele um assento confortável e lavou-lhe os pés (costume da Índia antiga destinado a dar as boas-vindas aos hóspedes). O rei Bali queria dar um presente ao brâmane anão e, por isso, perguntou-lhe o que gostaria de ganhar. Ele ofereceu ao brâmane as suas vacas, ouro, vilarejos ou o que quer que o brâmane quisesse. O Senhor Vishnu, na forma do brâmane miniaturizado, pediu como presente um território que ele pudesse medir com três passos. O rei Bali achou muita graça desse pedido e queria dar-lhe um território maior, porém o brâmane anão insistiu no tamanho mensurável por três passos. O rei Bali assegurou-lhe que lhe daria esse pequeno território. Nesse momento, Shukracharya, o Guru do rei Bali, desconfiou de algo estranho estava ocorrendo.

Ele cochichou no ouvido do rei Bali que aquele brâmane anão era o próprio Senhor Vishnu, que havia aparecido ali, a fim de auxiliar os Devatas. O Guru sugeriu ao rei que voltasse atrás e pedisse de volta o presente. Shukracharya disse ao rei Bali que tudo se justifica, quando estão em jogo as vidas dos súditos, bem a do próprio rei. O rei Bali refletiu por um momento e disse ao seu Guru, Shukracharya, que não era uma coisa honrosa tomar de volta um presente, mesmo porque como ele era neto do virtuoso Prahlad, ele nunca poderia fazer isso, pois tal coisa traria a desgraça para seu avô. O Guru Shukracharya ficou furioso e amaldiçoou o rei Bali, dizendo que seu poder e sua riqueza desapareceriam pelo fato de ele não ter obedecido às ordens de seu Guru.

A rainha, esposa do rei Bali, veio lavar os pés do brâmane anão. Nesse exato momento, o anão começou a crescer. Ele se tornou maior do que o universo. Os sábios puderam ver toda a criação no corpo de Vamana. Vamana então deu seu primeiro passo e cobriu toda a Terra. No segundo passo ele cobriu o Céu e o Inferno. Nesse meio tempo, Garuda colocou grilhões em Bali, convertendo-o em escravo, e levou-o diante de Vamana. O Senhor Vishnu queria testar o rei Bali e lhe disse que ele havia faltado com a sua palavra, pois não possuía posses suficientes para presentear conforme havia prometido. O rei Bali disse que não teve nenhuma intenção de decepcionar o Senhor Vishnu e por isso pediu ao Senhor Vishnu que desse o terceiro passo sobre a sua cabeça, pois essa era a sua propriedade mais importante. Nesse momento, Prahlad (avô do rei Bali) apareceu.

O Senhor Vishnu louvou a atitude de Bali e disse a Prahlad que seu neto havia cumprido a sua palavra, mesmo com o risco de ser amaldiçoado por seu Guru. Reconhecendo as suas virtudes, o Senhor Vishnu deu-lhe o domínio das regiões infernais e, de certa feita, o rei Bali solicitou-lhe que guardasse o seu palácio infernal.


6. O SEXTO AVATAR: PARASHURAMA (RAMA COM O MACHADO)

O sábio Jamadagni e sua esposa Renuka viviam, tranqüilamente, num lugar retirado no reino dos Haihayas. O rei do Haihayas, Arjuna (que não deve ser confundido com o Arjuna do Mahabharata) era um devoto do Senhor Dattatreya.

Muito contente com a devoção de Arjuna, o Senhor Dattatreya concedeu-lhe dez pares de mãos com armas e fez com que ele se tornasse invencível. Todo esse poder subiu à cabeça do rei e ele se tornou um tirano. Quando a sua tirania estava no auge, o Senhor Vishnu veio à Terra como o sexto Avatar. Nasceu como o filho mais novo do sábio Jamadagni e sua esposa Renuka, os quais lhe deram o nome de RAMA (que não deve ser confundido com o Rama do Ramayana). Rama era brâmane por nascimento e, tradicionalmente, os brâmanes eram mestres e não usavam armas. O uso de armas ficava restrito ao Kshatriyas (a casta dos guerreiros). O rei Arjuna era um Kshatriya.

Rama, no entanto, gostava muito de todos os tipos de armas. Tornou-se, desde muito jovem, perfeito no uso das seguintes armas: arco e flecha (Dhanusha); espada (Katar); lança (Bhala) e machado (Parusha). O seu apelido de PARASHURAMA vem de sua arma favorita Parashu (ou machado), que lhe foi dado pelo Senhor Shiva, que lhe ensinou também a manejar todas as armas. Certa vez, foi visitar o Senhor Shiva, mas foi barrado por Shri Ganapati, tendo por isso quebrado uma de suas presas, mas teve também seu machado partido por Shri Ganapati. 

O sábio Jamadagni tinha uma vaca mágica que se chamava Kamadhenu. Essa vaca podia produzir leite suficiente para alimentar um exército inteiro. Um dia, o rei tirano Arjuna foi para a floresta, com seu exército, para caçar e lá, ele se perdeu. Ele e seu exército vagaram por muito tempo, até que encontraram a cabana do sábio Jamadagni. Eles estavam famintos e cansados. O sábio reconheceu o rei e o acolheu em sua casa. Sua esposa, Renuka, preparou a comida para o rei e para o seu séquito. Ela preparou vários doces e outras iguarias feitas de leite. O rei ficou admirado ao constatar que havia sido gasto uma enorme quantidade de leite naquela refeição. O rei perguntou à Renuka sobre isso e ela lhe falou acerca dos poderes mágicos da vaca Kamadhenu.

Então o rei disse ao sábio que essa vaca tão prodigiosa só poderia pertencer a ele e pediu aos soldados que amarrassem a vaca e a levassem para o seu palácio.
Parashurama amava todos os animais e amava, de modo especial, a vaca Kamadhenu. A primeira coisa que fazia ao chegar em casa era ir ao estábulo e acariciar a vaca. Ele foi ao estábulo naquele dia, porém não encontrou mais a vaca para acariciar. Ele perguntou ao seu pai onde é que Kamadhenu estava. O sábio contou-lhe toda a história de como o rei tirano havia capturado a sua amada Kamadhenu e Parashurama ficou furioso com isso. Ele pegou seu machado preferido e seu arco e flecha e encaminhou-se para o palácio do rei. O rei o viu chegando e como ele sabia que Parashurama era um grande guerreiro, ele ordenou que a Akshauhini, ou seja, a divisão mais poderosa de seu exército (que se compunha de 109.350 soldados de infantaria, 65.610 soldados de cavalaria, 21.870 elefantes, 21.810 carruagens) lutasse com Parashurama.

Parashurama sozinho enfrentou o exército inteiro e nem um único soldado permaneceu vivo. O rei Arjuna ficou furioso e saiu do palácio, a fim de lutar com Parashurama e trazia arcos e flechas, em cada um de seus dez pares de mãos. Parashurama destruiu rapidamente todas essas armas do rei com seu próprio arco e flecha e, em seguida, cortou a cabeça do rei Arjuna com seu machado.
A tranqüilidade voltou novamente a reinar na cabana do sábio Jamadagni, pai de Parashurama. Alguns anos mais tarde, quando os filhos do rei Arjuna, já estavam crescidos, eles foram à cabana a fim de vingar a morte de seu pai. Não encontrando Parashurama, eles mataram o sábio Jamadagni e foram embora.

Renuka ficou inconsolável e não parava de chorar. Parashurama ouviu o choro de sua mãe e voltou rapidamente para casa. Ele viu seu pai morto estendido no chão e sua mãe batendo 21 vezes em seu peito, em sinal de tristeza.
Após descobrir quem havia matado seu pai, Parashurama prometeu à sua mãe que erradicaria, 21 vezes, da Terra a casta dos Kshatriyas e assim ele o fez. Ele erradicou os Kshatriyas 21 vezes, porque esse foi o número de vezes que sua mãe bateu no peito.


7. O SÉTIMO AVATAR: RAMA

Ravana era o rei de uma ilha ao sul da Índia chamada Lanka (antigo Ceilão, que hoje se chama Sri Lanka). Ele queria tornar-se imortal e por isso adorou a Deus e praticou muitas penitências severas. Ele cortou a sua própria cabeça dez vezes, e em retribuição a esse sacrifício, ele conseguiu ter de volta não apenas uma, mas dez cabeças. Por isso, ele ficou com dez cabeças. Tão logo obteve essa força toda, ele começou a usá-la de forma maléfica. Depois de conquistar a maior parte do mundo, ele começou a querer conquistar o Céu (Swarga). Os Devatas ficaram em pânico, quando descobriram os planos de Ravana. Levados pelo rei Indra, os Devatas foram procurar o Senhor Vishnu, a fim de pedir-lhe que os protegesse. O Senhor Vishnu assegurou-lhes que eles seriam salvos e que se encarnaria como Rama, a fim de desempenhar a missão de destruir Ravana.
O rei Dasharatha estava vivendo tranqüilamente em Ayodhya com suas três rainhas: Kaushalya, Kaikeyi e Sumitra. O rei tinha apenas uma preocupação, pois não havia ninguém para sucedê-lo, uma vez que ele não tinha filhos. Ele pediu aos Rishis (sábios ou pessoas santas) que executassem o ritual do Putrakarma Yagn (uma adoração a Deus para a obtenção de um filho). Na medida em que o ritual do Yagn estava sendo executado, surgiu uma figura divina que trazia nas mãos um recipiente que continha uma espécie de pudim. A figura divina disse ao rei para distribuir aquele pudim para as três rainhas. O rei Dasharatha deu parte do pudim para Kaushalya, Kaikeyi e Sumitra. O que sobrou foi dado mais uma vez para Sumitra.

No devido tempo, as três rainhas foram abençoadas com filhos. Em primeiro lugar, Kaushalya deu à luz a Rama. Em seguida, Bharat nasceu de Kaikeyi. Finalmente, Sumitra deu à luz aos gêmeos Lakshmana e Shatrughana.
Rama era o mais virtuoso de todos e também o mais velho e, por isso, o sucessor do rei Dasharatha. Quando chegou o momento em que o rei Dasharatha deveria transferir as rédeas do seu reino ao seu herdeiro legítimo, ele quis coroar, desde logo, Rama como o novo rei. Umas das servas da rainha Kaikeyi, chamada Manthara, não gostou disso. Ela aconselhou Kaikeyi a pedir ao rei Dasharatha a graça que ele lhe havia prometido há muitos anos, quando a rainha salvou-lhe a vida no campo de batalha. O rei Dasharatha, a fim de cumprir a sua palavra empenhada, disse à Kaikeyi que concordava em lhe conceder uma graça. Kaikeyi pediu-lhe que o reino fosse entregue ao seu filho Bharat e que Rama fosse banido do reino por 14 anos.

Dasharatha ficou tão chocado com esse pedido que não resistiu e morreu logo depois. Bharat não concordou com a atuação de sua mãe e, por causa disso, governou o reino como representante de Rama e não se considerava o legítimo rei. Como prova disso, pediu a Rama que lhe confiasse as suas sandálias, as quais foram mantidas sobre o trono, durante 14 anos, pois acreditava que seu amado irmão Rama era o legítimo rei. Lakshmana e Sita (esposa de Rama) decidiram acompanhar Rama em seu exílio na floresta.

Shupnakha era a irmã favorita de Ravana e quando viu Rama apaixonou-se, imediatamente, por ele. Ela o pediu em casamento, porém Rama lhe disse que já era casado. Shupnakha avançou em direção a Sita, a fim de feri-la, mas Lakshmana tirou a sua espada e cortou-lhe o nariz. Shupnakha foi então chorando procurar o seu irmão Ravana. Ravana então disse à sua irmã que raptaria Sita, porque ela tinha sido a causa de sua humilhação. Ravana pediu ao seu tio Maricha, para se transformar num veado de ouro a fim de atrair Rama e Lakshmana para longe de Sita. Esse plano foi bem sucedido e Ravana raptou Sita e a aprisionou num jardim em Lanka.

Quando Rama e Lakshmana voltaram da caça, não encontraram mais Sita. Eles compreenderam então o que havia ocorrido. Eles se encontraram com Sugriva, o rei dos macacos, que atribuiu ao seu ministro Hanumana a tarefa de encontrar Sita. Hanumana era filho do deus do vento (Pavana) e, por isso, era capaz de voar. Ele foi a Lanka e descobriu onde Sita estava aprisionada. Nesse processo, ele incendiou a cidade de Lanka.

Em seguida, o oceano separou Lanka da Índia. Rama formou um exército de macacos e se aproximou do oceano, mas deu-se conta de que esse exército não poderia atravessar o mar até alcançar Lanka. Rama fez um ritual de adoração ao deus do oceano, Varuna, por três dias, durante os quais ele fez um jejum completo e não bebeu nem água. Finalmente, Varuna apareceu diante de Rama. Varuna sabia que Rama era o próprio Senhor Vishnu. Varuna disse a Rama que ele poderia facilmente atravessar o oceano caminhando sobre as águas. Todavia, Varuna sugeriu-lhe que ele construísse uma ponte entre a Índia e Lanka, a qual seria muito útil para os outros. Assim, o exército de Rama construiu a ponte sugerida por Varuna.

Ravana tomou conhecimento da existência do poderoso exército de macacos comandado por Rama e enviou o seu melhor batalhão para lutar contra ele. A guerra durou dez dias. No nono dia, Meghnath, filho de Ravana, assumiu o comando do exército. Rama o derrotou facilmente. Vibhishana, irmão de Ravana, abandonou Ravana e uniu-se a Rama. Assim, Rama tomou conhecimento de informações secretas a respeito do poderio bélico de Ravana. No décimo dia, Ravana conduziu o exército pessoalmente. Depois de uma luta acirrada, Rama matou Ravana e libertou Sita. Rama então coroou Vibhishana como o novo rei de Lanka.

Os 14 anos de exílio de Rama haviam chegado ao fim. Quando Rama, Lakshmana e Sita chegaram a Ayodhya, Bharata e todos os cidadãos de Ayodhya deram-lhes as boas-vindas. Todos enfeitaram as suas casas e acenderam fileiras de lâmpadas de barro (diya), no afã de celebrar essa ocasião festiva. Na Índia, celebra-se esse acontecimento durante o Diwali.

A história de Rama chama-se Ramayana e foi escrita por Valmiki em sânscrito. No século 17, o poeta Tulsidas traduziu essa história do sânscrito para o hindi. O Ramayana é um dos dois maiores livros religiosos dos hindus. A história de Rama é representada todos os anos em todas as cidades da Índia. A peça teatral chama-se Ramlila. No nono dia do Dashehra, as efígies gigantescas de Meghnath (filho de Ravana) e de Kumbhakarna (irmão de Ravana) são queimadas na fogueira, enquanto uma multidão imensa assiste ao espetáculo. No décimo e último dia do festival de Dashehra, a efígie de Ravana é queimada a fim de simbolizar a vitória do bem e a destruição do mal.

“A palavra Rama significa ‘encantador’. Rama é aquele que encanta ou resplandece. O Mantra Rama, em seu verdadeiro significado, representa o universo consciente e inconsciente que surge do Absoluto não manifestado para a matéria animada. Representa a ação ritual, o próprio rito e o executor do rito. É um objeto de meditação (MAN) e um objeto de proteção (TRA), logo é chamado de MANTRA (expressão verbal mágica), que exprime tudo aquilo que as palavras não são capazes de expressar.

Assim como toda a natureza de uma grande figueira está contida em sua minúscula semente, assim também todo o universo móvel ou imóvel está contido na palavra-semente RAMA.”
RAMA PURVA TAPINI UPANISHAD


8. O OITAVO AVATAR: KRISHNA
Leia aqui a História.

9. O NONO AVATAR: BUDA (SEGUNDO A VISÃO CLÁSSICA)
Leia aqui a História.

10. O DÉCIMO AVATAR: KALKI

No final da presente Kali Yuga, quando a virtude e a religião desaparecerem e o mundo passar a ser governado por políticos injustos e corruptos, Kalki aparecerá a fim de destruir os maus e anunciar uma nova era de ouro. Segundo a tradição, ele virá montado num cavalo branco com uma espada desembainhada em sua mão, resplandecente como um cometa. Conforme alguns mitos sobre o fim do mundo, o cavalo de Kalki trincará a Terra com sua pata direita, fazendo com que a tartaruga que dá suporte ao mundo seja levada para as profundezas. Os deuses, depois disso, restaurarão a pureza original da Terra mais uma vez e uma nova humanidade surgirá.

Consta do Bhagavata Purana: “no crepúsculo dessa era, quando todos os reis (ou governantes) se tornarem ladrões, o Senhor do Universo nascerá como Kalki…”

Fonte : Apostila do Nabhi da Sahaja Yoga